Pão e Fotografia

Fazer trabalhar a memória, evocar a memória, é um dos atributos da fotografia.

Faço em texto um exercício de memória sem ter aqui e agora a fotografia como recurso. Devo pensar no ano de 1975, mesmo antes, e um pouco depois. Devo correr o risco da imprecisão que os muitos anos passados podem causar.

Fiz meu aprendizado básico, fundamental, no Foto Cine Clube Gaúcho de Porto Alegre, meu primeiro curso à noite, um dos primeiros cursos que fiz por opção própria, já que antes havia, além do colégio, inglês, piano, violão e não sei mais o que, que não deram certo.

Fazia tempo que, antes de entrar para o Foto Cine Gaúcho, eu observava meu avô fotógrafo Bortolo Achutti quando eu ia para Santa Maria nas férias de julho.

Fez pão, muito pão, meu outro avô, Guido Robinson, que tinha uma pequena padaria também em Santa Maria, enriquecendo ainda mais as minhas férias naqueles idos meses de julho. Posso dizer que eu tive durante um bom tempo minha atenção voltada para estas dois produtos básicos – pão e fotografia, fotografia e pão.

Fazendo este texto, percebo que provavelmente já estavam lá no passado as razões que me levaram a optar por Paris cidade de onde escrevo, Paris do pão e da fotografia, e do vinho também, antes que alguém me corrija.

Fiz a inscrição depois comprei uma pasta, voltei para casa, coloquei uma capa caprichada e fui para a minha primeira aula na turma das 20h. Tenho na lembrança que eu era um dos mais jovens. Eu fui logo anotando tudo já nas primeiras aulas, negativo, grãos de prata, anti-halo, velocidade, abertura, filtros, composição... Alguns dias depois, ganhei minha Pentax SPF com lente normal e fui à luta. Também comecei a alugar o laboratório do Clube nas horas vagas, seu Cleto perderia a paz de suas tardes, pois por lá iria eu pingando fixador pelo andar inteiro para consulta-lo, para aprender a fazer as tapagens, além de aprender que uma fotografia tinha que ter branco, preto e cinza – hoje não se fala mais nisto. Por falar em laboratório, lembro do prof. Lima que deixou-me desconsertado quando “didaticamente” disse em uma aula ser capaz de ampliar um negativo de 1 cm em 34 x 40 sem que se pudesse ver o grão. Lembro da foto de um chapéu de palha feita pelo prof. Leão em separação de tons, e da sua risada divertida e rouca de fumante inveterado. Nunca vou esquecer das fotografias do prof. Strehl, como as que fez da Redenção na madrugada em um dos invernos daquela década. Suas fotografias representavam para mim desafio e inibição, tamanha a força que tinham.

Faz 50 anos o Foto Cine Clube Gaúcho, sobrevivente à margem da mídia. Perderam aqueles que não estudaram no Foto Cine e que não conheceram seus personagens. Outros 50 anos virão e, quem sabe, Porto Alegre poderá conhecer um pouco da historia daqueles que sempre fizeram da fotografia um multiplicável alimento para a alma. Parabéns!

Luiz Eduardo Robinson Achutti, Paris 26 de junho de 2001.