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| Dissertação
de Mestrado defendida no Departamento de Antropologia/UFRGS no dia
30/04/1996. |
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| A
dissertação intitulada: Fotoetnografia:
Um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho
em uma vila popular na cidade de Porto Alegre
é
constituída de duas partes ou, de duas formas de texto; a
primeira um texto verbal e a segunda um exercício na forma
de um texto visual. |
| O
ponto central de minha preocupação esteve voltado
para as possibilidades de articular a construção de
imagens fotográficas com a perspectiva do pensamento antropológico.
Pretendi ajudar a delimitar um campo específico, ainda em
construção, que denomino FOTOETNOGRAFIA.
Uma forma específica de fotografia informada pelo saber antropológico
e, por decorrência, empenhada no inventário dos elementos
culturais e sociais de grupos humanos. No primeiro capítulo,
História: Fotografia e Etnografia, busquei alguns elementos
comuns a fotografia e a etnografia, práticas que surgem por
volta da metade do século passado no contexto da expansão
colonialista européia. Ambas surgem para de alguma maneira
retratar o outro. Relacionei os primeiros pontos de contato entre
o exercício da fotografia e da etnografia, a câmera
fotográfica como forma de equipar os antropólogos
nos seus trabalhos de campo. Descrevi como se consolidou a chamada
Documentary Photography nos Estados Unidos e a repercussão
e importância desta a ponto influenciar os primeiros trabalhos
os quais constituíram o princípio de uma antropologia
visual. Em nenhum momento fez parte de minhas preocupações
outras possibilidades englobadas no que se entende por antropologia
visual. Sem desconsiderar a importância das contribuições
daqueles que se empenharam no campo do cinema e do vídeo
etnográficos, gostaria de fazer uma contribuição
propondo a ampliação do campo da antropologia visual
viabilizada, nos termos do aproveitamento do fazer fotográfico,
atividade profissional da qual me ocupo já há 24 anos.
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| No
segundo capítulo, tratei das questões implicadas no
ato de OLHAR: como
este é social e tecnicamente determinado. As diversas formas
do olhar e as modificações ocorridas quando do surgimento
da fotografia. Busquei também registrar esta nova fase de
reeducação do olhar que ora ocorre devido ao desenvolvimento
de um "novo mundo" virtual em que estamos todos implicados. Já
que é em função do tipo de olhar de uma dada
época que são determinados os tipos de imagens e a
forma como as pessoas se relacionam com elas. |
| No
terceiro capítulo, dedicado a fotografia e suas possibilidades,
fiz um inventário das modificações que o advento
da computação e suas decorrências virtuais estão
causando à fotografia e às crenças quanto a
objetividade fotográfica. Sugeri que é justamente
neste momento, em que se entende a fotografia como algo construído
e não como "um espelho com memória" como queria Daguerre,
que se deve formular as potencialidades e possibilidades de um olhar
fotográfico, instruído pelos pressupostos antropológicos.
Procurei ver como estética e tecnicamente se poderia construir
uma fotografia para, como disse o professor Samain, "ajudar o homem
a falar do homem". Explicitei algumas possibilidades de construção
de narrativas através de imagens fotográficas contextualizadas
que dessem conta de dados culturais numa perspectiva etnográfica.
Para isso sugeri o termo FOTOETNOGRAFIA.
Por fim, apontei alguns elementos que podem transcender o que se
entende por antropologia visual, levando num futuro próximo,
a uma antropologia em multimídia, uma forma polissêmica
e polifônica de apreender e discorrer conteúdos antropológicos.
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| Na
segunda parte da dissertação, apresentei um exercício
de fotoetnografia compondo um texto visual. De certa maneira, procurei
inverter uma tradição, utilizei trechos de meu diário
de campo como um negativo fotográfico, como forma de legendar
meu texto visual. Portanto, esteve afastada de minhas pretensões
a construção de um texto etnográfico clássico.
Utilizei, como foco de meu exercício de construção
do texto fotoetnográfico, mulheres trabalhadoras da Vila
Dique, uma vila de favela situada na região periférica
da cidade de Porto Alegre, originalmente área de depósito
de lixo. Esta comunidade, as trabalhadoras e suas famílias,
têm seu cotidiano, suas vidas, suas estratégias de
sobrevivência, e suas percepções de mundo permeadas
pelo lixo, restos e detritos da grande cidade. A vila está
situada junto ao entreposto de abastecimento de frutas e verduras,
a CEASA, o que permite que os restos dos produtos hortifrutigranjeiros
ali vendidos sejam também uma das fontes de alimentação
destas pessoas. As mulheres trabalhadoras organizaram uma cooperativa
de catadoras de lixo e, em um galpão, selecionam o lixo (que
atualmente provém de uma coleta seletiva feita pela prefeitura
de Porto Alegre). Na sua origem, a cooperativa não era predominantemente
feminina mas, a partir de uma série de conflitos entre as
mulheres e os homens, elas assumiram o gerenciamento, e a quase
totalidade da cooperativa passou a ser das mulheres. |
| Outra
peculiaridade desta população é que ela é
majoritariamente de migrantes, de origem rural, da região
das colônias alemãs do Estado, colonos "sem-terra",
apresentando visualmente esta característica étnica
e cultural. Apesar da precariedade das condições de
vida, a cooperativa de catadoras de lixo pode ser tomada como um
caso bem sucedido de mobilização e organização,
além de exemplar no que se refere ao aproveitamento e transformação
do lixo. A população mobilizada conquistou também
um posto de saúde comunitário, uma creche e uma escola
primária, que está em construção. |
| Abordar
fotoetnograficamente trabalhadoras que vivem do lixo, junto do lixo,
num lugar para o qual a sociedade maior vira as costas, é
revelar uma realidade específica relativa a grupos populares
urbanos. Existe a tendência de rejeitar tudo o que está
relacionado com o lixo. Lá onde ele está não
temos interesse de estar. A partir de uma perspectiva ecológico-preservacionista
encontram-se as estratégias de reciclagem de material não
biodegradável. Segundo esta perspectiva, no lixo não
encontraremos mais o fim da linha ou fim da cadeia de consumo encontraremos
o fim do desperdício, soluções modernas para
a preservação do meio ambiente. Encontraremos uma
verdadeira usina de produção de matéria - prima.
Deste ponto de vista, o trabalho das mulheres da Vila Dique pode
ser encarado como de fundamental importância, situado no meio
de um complexo processo produtivo. Através de uma abordagem
descritiva, onde a principal forma de narrar é o uso de imagens,
busquei investigar os elementos através dos quais esta população
constrói traços de sua identidade. Que tipo de apropriação
esta comunidade, isto é, os outros, fazem do lixo produzido
e rejeitado por nós. Procuro visualizar como se dá
o processo de trabalho de separação do lixo, a organização
do espaço de suas casas na construção de estratégias
de reprodução social e, enfim, mapear e retratar estas
mulheres. A partir do uso da fotografia, associada às técnicas
antropológicas de pesquisa de campo, e tendo como objeto
esta população e sua inserção com e
no lixo, busquei pensar e desenvolver uma modalidade da antropologia
visual como uma linguagem e um olhar, capaz de, no processo de conhecer,
nos apresentar dados e informações, nos levar a uma
reflexão. |
| Como
escreveu Ondina Leal, "a fotografia é um aprendizado de observação
paciente, de elaboração minuciosa de diferentes estratégias
de aproximação com o objeto, de desenvolvimento de
uma percepção seletiva, de uma vigilância constante
e de prontidão para captar o acontecimento no momento do
acontecimento. A dupla capacidade da câmara de subjetivar
e objetivar a realidade, a constante consciência de que se
é responsável por este processo, por uma técnica
de apreensão da realidade, de que se é sujeito deste
conhecimento, é um ensinamento epistemológico e uma
forma de fazer antropologia". |
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