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Editado por Tomo Editorial e Palmarinca, Porto Alegre, 1997. 
Dissertação de Mestrado defendida no Departamento de Antropologia/UFRGS no dia 30/04/1996.
A dissertação intitulada: Fotoetnografia: Um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho em uma vila popular na cidade de Porto Alegre é constituída de duas partes ou, de duas formas de texto; a primeira um texto verbal e a segunda um exercício na forma de um texto visual.
O ponto central de minha preocupação esteve voltado para as possibilidades de articular a construção de imagens fotográficas com a perspectiva do pensamento antropológico. Pretendi ajudar a delimitar um campo específico, ainda em construção, que denomino FOTOETNOGRAFIA. Uma forma específica de fotografia informada pelo saber antropológico e, por decorrência, empenhada no inventário dos elementos culturais e sociais de grupos humanos. No primeiro capítulo, História: Fotografia e Etnografia, busquei alguns elementos comuns a fotografia e a etnografia, práticas que surgem por volta da metade do século passado no contexto da expansão colonialista européia. Ambas surgem para de alguma maneira retratar o outro. Relacionei os primeiros pontos de contato entre o exercício da fotografia e da etnografia, a câmera fotográfica como forma de equipar os antropólogos nos seus trabalhos de campo. Descrevi como se consolidou a chamada Documentary Photography nos Estados Unidos e a repercussão e importância desta a ponto influenciar os primeiros trabalhos os quais constituíram o princípio de uma antropologia visual. Em nenhum momento fez parte de minhas preocupações outras possibilidades englobadas no que se entende por antropologia visual. Sem desconsiderar a importância das contribuições daqueles que se empenharam no campo do cinema e do vídeo etnográficos, gostaria de fazer uma contribuição propondo a ampliação do campo da antropologia visual viabilizada, nos termos do aproveitamento do fazer fotográfico, atividade profissional da qual me ocupo já há 24 anos.
No segundo capítulo, tratei das questões implicadas no ato de OLHAR: como este é social e tecnicamente determinado. As diversas formas do olhar e as modificações ocorridas quando do surgimento da fotografia. Busquei também registrar esta nova fase de reeducação do olhar que ora ocorre devido ao desenvolvimento de um "novo mundo" virtual em que estamos todos implicados. Já que é em função do tipo de olhar de uma dada época que são determinados os tipos de imagens e a forma como as pessoas se relacionam com elas.
No terceiro capítulo, dedicado a fotografia e suas possibilidades, fiz um inventário das modificações que o advento da computação e suas decorrências virtuais estão causando à fotografia e às crenças quanto a objetividade fotográfica. Sugeri que é justamente neste momento, em que se entende a fotografia como algo construído e não como "um espelho com memória" como queria Daguerre, que se deve formular as potencialidades e possibilidades de um olhar fotográfico, instruído pelos pressupostos antropológicos. Procurei ver como estética e tecnicamente se poderia construir uma fotografia para, como disse o professor Samain, "ajudar o homem a falar do homem". Explicitei algumas possibilidades de construção de narrativas através de imagens fotográficas contextualizadas que dessem conta de dados culturais numa perspectiva etnográfica. Para isso sugeri o termo FOTOETNOGRAFIA. Por fim, apontei alguns elementos que podem transcender o que se entende por antropologia visual, levando num futuro próximo, a uma antropologia em multimídia, uma forma polissêmica e polifônica de apreender e discorrer conteúdos antropológicos.
Na segunda parte da dissertação, apresentei um exercício de fotoetnografia compondo um texto visual. De certa maneira, procurei inverter uma tradição, utilizei trechos de meu diário de campo como um negativo fotográfico, como forma de legendar meu texto visual. Portanto, esteve afastada de minhas pretensões a construção de um texto etnográfico clássico. Utilizei, como foco de meu exercício de construção do texto fotoetnográfico, mulheres trabalhadoras da Vila Dique, uma vila de favela situada na região periférica da cidade de Porto Alegre, originalmente área de depósito de lixo. Esta comunidade, as trabalhadoras e suas famílias, têm seu cotidiano, suas vidas, suas estratégias de sobrevivência, e suas percepções de mundo permeadas pelo lixo, restos e detritos da grande cidade. A vila está situada junto ao entreposto de abastecimento de frutas e verduras, a CEASA, o que permite que os restos dos produtos hortifrutigranjeiros ali vendidos sejam também uma das fontes de alimentação destas pessoas. As mulheres trabalhadoras organizaram uma cooperativa de catadoras de lixo e, em um galpão, selecionam o lixo (que atualmente provém de uma coleta seletiva feita pela prefeitura de Porto Alegre). Na sua origem, a cooperativa não era predominantemente feminina mas, a partir de uma série de conflitos entre as mulheres e os homens, elas assumiram o gerenciamento, e a quase totalidade da cooperativa passou a ser das mulheres.
Outra peculiaridade desta população é que ela é majoritariamente de migrantes, de origem rural, da região das colônias alemãs do Estado, colonos "sem-terra", apresentando visualmente esta característica étnica e cultural. Apesar da precariedade das condições de vida, a cooperativa de catadoras de lixo pode ser tomada como um caso bem sucedido de mobilização e organização, além de exemplar no que se refere ao aproveitamento e transformação do lixo. A população mobilizada conquistou também um posto de saúde comunitário, uma creche e uma escola primária, que está em construção.
Abordar fotoetnograficamente trabalhadoras que vivem do lixo, junto do lixo, num lugar para o qual a sociedade maior vira as costas, é revelar uma realidade específica relativa a grupos populares urbanos. Existe a tendência de rejeitar tudo o que está relacionado com o lixo. Lá onde ele está não temos interesse de estar. A partir de uma perspectiva ecológico-preservacionista encontram-se as estratégias de reciclagem de material não biodegradável. Segundo esta perspectiva, no lixo não encontraremos mais o fim da linha ou fim da cadeia de consumo encontraremos o fim do desperdício, soluções modernas para a preservação do meio ambiente. Encontraremos uma verdadeira usina de produção de matéria - prima. Deste ponto de vista, o trabalho das mulheres da Vila Dique pode ser encarado como de fundamental importância, situado no meio de um complexo processo produtivo. Através de uma abordagem descritiva, onde a principal forma de narrar é o uso de imagens, busquei investigar os elementos através dos quais esta população constrói traços de sua identidade. Que tipo de apropriação esta comunidade, isto é, os outros, fazem do lixo produzido e rejeitado por nós. Procuro visualizar como se dá o processo de trabalho de separação do lixo, a organização do espaço de suas casas na construção de estratégias de reprodução social e, enfim, mapear e retratar estas mulheres. A partir do uso da fotografia, associada às técnicas antropológicas de pesquisa de campo, e tendo como objeto esta população e sua inserção com e no lixo, busquei pensar e desenvolver uma modalidade da antropologia visual como uma linguagem e um olhar, capaz de, no processo de conhecer, nos apresentar dados e informações, nos levar a uma reflexão.
Como escreveu Ondina Leal, "a fotografia é um aprendizado de observação paciente, de elaboração minuciosa de diferentes estratégias de aproximação com o objeto, de desenvolvimento de uma percepção seletiva, de uma vigilância constante e de prontidão para captar o acontecimento no momento do acontecimento. A dupla capacidade da câmara de subjetivar e objetivar a realidade, a constante consciência de que se é responsável por este processo, por uma técnica de apreensão da realidade, de que se é sujeito deste conhecimento, é um ensinamento epistemológico e uma forma de fazer antropologia".
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