A Fotografia e o Olho 1. |
| Caríssimos fotógrafos, professores, alunos, iniciados, iniciantes e interessados em geral. Em primeiro lugar gostaria de louvar a presente iniciativa que procura fazer de diversos ângulos o retrato atual do ensino da fotografia. Gostaria também de agradecer à minha colega professora Umbelina Barreto a lembrança do meu nome, o que vem provar que, quem não é visto também pode ser lembrado. Assim que recebi por e-mail o convite do Japa para participar deste evento, ainda que a distância, fiquei pensando de que forma eu poderia ser útil, embora sem poder ver nem ser visto, sem poder perguntar e nem responder. Concluí pelo caminho mais óbvio, relatar muito brevemente minha experiência de três anos vivendo em Paris, tendo passado da condição de professor de fotografia do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à de aluno de doutorado da Universidade de Paris 7. Meu orientador de tese, directeur como se diz aqui, professor Arlaud, é cineasta e dirige o Laboratoire d’Anthropologie Visuelle et Sonore du Monde Contemporain. Ele é professor do seminário chamado “Antropologia visual do mundo contemporâneo” que tem como objetivos discutir questões teóricas da antropologia visual e iniciar os alunos de maîtrise na prática do vídeo na perspectiva da realização de trabalhos etnográficos. O professor Arlaud, que não é fotografo, defende o ensino da fotografia mesmo para aqueles alunos que se dizem interessados apenas em vídeo. Ele tinha como colaboradora uma fotógrafa americana chamada Michelle Vignes, que começou como secretária de Cartier-Bresson, e acabou abandonando o mestre para ser ela mesma fotógrafa. O meu orientador defende a idéia de que o ensino da fotografia é também importante para o ensino posterior do vídeo ou do cinema. Segundo ele, isto fica evidente se comparados os primeiros resultados das aulas práticas em vídeo de alunos que passaram pela fotografia com os que não passaram. “A qualidade da câmara é outra”, como ele diz. Já no fim do meu primeiro ano em Paris, o professor Arlaud convidou-me para dar aulas no lugar da sra. Michelle que, doente, estava impossibilitada de sair dos Estados Unidos. Um pouco surpreso, aceitei o convite e fiquei responsável por iniciar o seminário que tem como objetivo final o ensino do vídeo, como eu havia dito. Os trabalhos práticos que são feitos em paralelo com algumas discussões teóricas são realizados no mesmo bairro em que fica a universidade. Primeiro com a fotografia e depois com vídeo, é proposto aos alunos que busquem contar algum aspecto do cotidiano do bairro em que fica a faculdade – o artesão que repara violoncelos, violões e violinos quase ao lado, a florista da esquina, os cafés, as praças, os colégios etc. As saídas dos alunos são seguidas de apresentação e discussão dos resultados, momento em que reforçamos os aspectos técnicos anteriormente tratados, assim como discutimos questões teóricas do fazer etnográfico – do trabalho de campo em antropologia. Nem todos os alunos vão fazer seu trabalho final de conclusão da faculdade inscritos na perspectiva da antropologia visual, muitos vão produzir monografias, digamos, tradicionais, e alguns vão se interessar por um trabalho associando a produção de um vídeo. Eu tenho conseguido, com o tempo, roubar uns poucos alunos para a fotografia. Ontem
estive no estúdio do Arlaud que está montando no computador
seu próximo filme sobre os caminhões do Paquistão.
No Paquistão, os caminhões são diferentes, todos
feitos em madeira e decorados com pinturas, personalizadas ao gosto dos
seus donos. São talvez a propriedade mais cara aos caminhoneiros
paquistaneses. Verdadeiras casas ambulantes, os caminhoneiros carregam
o mundo consigo. Os caminhões são inteiramente fabricados
em oficinas bizarras em que se misturam mecânicos, marceneiros,
eletricistas, soldadores e artistas. Em todos os caminhões, em
meio aos mais variados desenhos, há a pintura de um olho, decoração
fundamental para dar sorte, espantar o mau olhado. O Arlaud me leu a tradução
de uma cena que estava montando: enquanto a imagem mostrava um homem martelando
um pára-choque, escutava-se uma discussão de vários
outros que estavam ao lado tratando do preço da reforma. Diziam
para o cliente que, se ele pagasse pouco, teria o desenho de um olho triste,
mas, se quisesse um olho de último tipo, um olho alegre, contente,
custaria mais caro. |
|
![]() |
| Em tempo: O preço do olho, não há aqui nenhuma alusão à guerra, se é que pode-se chamar assim, mesmo porque Arlaud terminou de rodar seu filme no mês de junho deste ano.
|
| Obrigado pela atenção de vocês. Achutti, Paris, 11 de outubro de 2001 (um mês depois que o mundo mudou). |
| 1 - Texto escrito para leitura em encontro realizado no Senac em Porto Alegre |